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Livraria mais antiga do Brasil comemora 175 anos

 

Localizada em Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio, a Ao Livro Verde é reconhecida pelo Livro Guinness dos Recordes como a mais antiga do país; é 112 anos mais jovem que a livraria mais antiga do mundo, a Bertrand, em Lisboa, com 287 anos.

 

 

Na data do aniversário, 13 de junho, não houve festa por causa dos “tempos difíceis” segundo Ronaldo Sobral que herdou o negócio do pai, João Sobral: “as homenagens vieram de fora para dentro” diz ele, numa referência aos clientes, amigos e à imprensa local.

Segundo o jornal Terceira Via, um dos que a homenagearam, “todo campista que se preze sabe onde fica a livraria e tem algum tipo de história para contar do local”.

Ela apareceu pela primeira vez na imprensa logo após a inauguração, em 1844, em um anúncio no jornal O Monitor Campista que, além de livros, relacionava outros produtos da casa como perfumes, joias e “o verdadeiro rapé Bernardes, que já supre a falta do Princesa de Lisboa”.

Em 1994, ao completar 150 anos, foi tema de editorial em O Globo, assinado pelo então dono do jornal, Roberto Marinho, que comentou o nome Ao Livro Verde; “A razão social evocava esperança, que se cumpriu como milagre - e contra todas as expectativas, neste país de tão raros leitores”.

O porquê do nome Ao Livro Verde se perdeu na história, mas há lendas sobre a livraria como a de que nela o abolicionista campista José do Patrocínio comprou a pena com que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Ronaldo confirma: “Quem vai desmentir?”

Outro campista, o escritor José Cândido de Carvalho, cita a Ao Livro Verde no romance O coronel e o lobisomem, onde o personagem principal usava a livraria como escritório; e no seu último romance, O Rei Baltazar, que também tem um personagem inspirado no pai de Ronaldo de quem o escritor era amigo.

Campos dos Goytacazes é o maior município do interior do Estado do Rio e foi fundado em 1835, apenas 9 anos antes da livraria. Devido à localização, era estratégico no comércio marítimo internacional, através do Cais do Imperador, com importação e exportação de produtos e tráfico de escravos.

A importância era tal que, em 1883 Dom Pedro II inaugurou na cidade o primeiro serviço público de iluminação da América Latina; uma termelétrica a vapor que fornecia energia para 39 lâmpadas nas ruas.

Muitas famílias portuguesas se estabeleceram na região em fazendas de café e açúcar e foi para atender esse público que trazia professores de Portugal para a educação dos filhos, que o português José Vaz Correa Coimbra, inaugurou a Ao Livro Verdeque logo virou ponto de encontro dos intelectuais da região.

Por coincidência, no dia seguinte à inauguração, desembarcou no Rio Baptiste Louis Garnier, o francês que, também em 1844, abriu a Livraria Garnier, que se tornou uma das mais badaladas do Rio de Janeiro numa época em que a cidade já tinha 15 livrarias.

Depois do fundador, a Ao Livro Verde teve dois outros proprietários, um português e um alemão, até chegar ao pai de Ronaldo, único que viu o negócio passar para um herdeiro. Sobre um dos 3 filhos assumir o seu lugar Ronaldo diz: “Não tenho bola de cristal”. Um deles inclusive foi morar em Portugal.

A Ao Livro Verde emprega 17 funcionários e, como na época da inauguração vende vários outros produtos além de livros, a maior parte artigos de papelaria e informática. Tem um cyber café e a qualidade no atendimento é o que os clientes mais elogiam na internet.

Ronaldo lembra que o número de funcionários já foi maior mas a concorrência das escolas na venda de livros didáticos causou a diminuição. Critica com veemência as escolas transformadas em locais de comércio e não só de ensino como em sua época.

Diz que restou para Ao Livro Verde trabalhar com pequenas escolas ainda não dominadas pelas grandes editoras mas admite que no início do ano letivo precisa contratar mão de obra extra para o atendimento na livraria.

Campos dos Goytacazes tem hoje cerca de uma dúzia de livrarias, várias delas evangélicas e a maioria com livros e papelaria. A mais nova é a da rede mineira Leitura, inaugurada em 2015.

A segmentação no ramo livreiro também chegou à cidade; a Campos Cultural, com 7 anos, e acervo voltado para a literatura vai, segundo o dono Herval Junior, se especializar em literatura fantástica.

Na Ao Livro Verde, o best-seller do momento é O poder da manhã, livro de autoajuda de Hal Elrod, segundo lugar na lista dos mais vendidos no site PublishNews.

Aos 72 anos, Ronaldo Sobral está na livraria todos os dias e tem planos e sonhos para ela: a curto prazo vai inaugurar um site que terá um museu virtual com o acervo de fotos históricas e, para  mais adiante, sonha com o aniversário de 200 anos da Ao Livro Verde em 2044.

 

 

24/072019