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A importância social das livrarias


Junto com o marido, Sérgio dos Santos Silva, Danielle  Rosa Paul está há 20 anos na Livraria Castro Alves, em Araruama, e irá defender projeto de  tese de doutorado sobre a função social das livrarias, tema que conhece na prática, mas que, segundo ela, muitos livreiros ignoram.

A Castro Alves foi batizada em função do poema A América e o livro, do autor baiano, que diz: “Bentido o que semeia livros, livros à mão cheia e manda o povo pensar”. Antes da inauguração, lembra ela, muitos questionaram a necessidade de uma livraria em uma cidade onde não havia nenhuma.

Desde então, foram inauguradas, em Araruama, outras duas, já fechadas, e uma terceira, a Big, que existe há dois anos. Afeita aos livros e de temperamento reservado Danielle, natural de Niterói, disse que a livraria nasceu também como meio de se socializar em uma cidade onde não conhecia ninguém.

Formada em psicologia pela UFF, hoje a livreira dá aulas e atendimento clínico em Araruama; “mas todas as tarefas são relacionadas ao convívio com o livro.” No consultório, indica autores para os pacientes vivenciarem a psicoterapia, e nas aulas recorre ao acervo da Castro Alves na áreas de sociologia contemporânea, psicologia social e esquizoanálise.

Para ela, a pandemia foi uma oportunidade de transformar as relações com os clientes da livraria e conquistar novos, graças a um incremento no sistema de entrega que gerou vendas até para cidades próximas como Cabo Frio e Niterói.

O WhatsApp tem agora destaque nas redes sociais da Castro Alves e é gerenciado por ela, que diz se relacionar de modo diferenciado e mais afetivo com os clientes com ajuda dos emoticons do aplicativo; “com nosso tratamento não tem como fecharem com outro lugar”, garante.

A mudança de paradigma causada na livraria pelo Covid-19 faz Danielle pensar também em outras formas de relacionamento entre os livreiros através das novas tecnologias: grupos de WhatsApp e plataformas para compartilhamento de ações de interesse comum, que facilitarão o convívio com profissionais do interior do estado.

Apesar de pregar a união da categoria, Danielle diz não ser a pessoa tão sociável que gostaria de ser. A representação da Castro Alves nas reuniões mensais da AEL cabe mais ao marido, Sérgio, diretor secretário da entidade.

Mas diz gostar muito da vice-presidente Solange Whehaibe, de quem se aproximou por ser, como ela, livreira no interior do estado, em Volta Redonda. Com Isaque Lerbak, diretor tesoureiro, que morreu de câncer em setembro deste ano, a relação se afinou durante o tratamento da doença, embora já se conhecessem profissionalmente.

“Na pandemia, com mais tempo, desfrutamos das afinidades já conhecidas das conversas anteriores, quando pegávamos os títulos encomendados com ele na Eldorado”, relembra. ”O livreiro conhecido, virou livreiro amigo”, com quem ela partilhava semelhanças de temperamento; a princípio reservado e depois mais aberto.

Com Danielle, Isaque queria inaugurar uma livraria “descolada” na antiga residência da livreira no bairro de São Francisco, Niterói, que seria um centro cultural. Sem ele, Danielle mudou o projeto e vai abrir um sebo anexo à Castro Alves que, em sua homenagem , se chamará Dante, nome escolhido pelo livreiro para  a loja niteroiense por causa do autor de A Divina Comédia.

Corroborando a tese de livraria como lugar de encontro, Danielle marcou seu relato para a AEL no café da Leonardo da Vinci, por coincidência fundada também por um casal, Vanna Piracinni e Andrei Duchiade, em 1952. Alí pôde conhecer seu quase xará, Daniel Lousada, novo dono da livraria, de quem admira o trabalho acompanhado pelas redes sociais.

Com perfil conservador Danielle, no entanto, diverge de Daniel em outras questões, o que não impede, segundo ela, uma ação conjunta em prol das livrarias. Lembra que teve uma loja infantil anexa à Castro Alves, chamada Branca de Neve, e o mobiliário, com imagens da personagem título e dos 7 anões, mostrava a possibilidade da convivência harmoniosa com as diferenças.

Terminado o encontro, a livreira araruemense se juntou ao marido que esteve buscando livros em editoras cariocas e foram, pelas livrarias da zona sul, à procura de um título encomendado por uma cliente, até encontrá-lo na Livraria da Travessa da Barra, por volta de oito da noite. Mas, antes de regressarem à Araruama ficaram mais um tempo por lá; “quem disse que se sai de onde se escuta jazz e se sente aroma de livros?!”, argumentou ela.

 


Qual foi seu primeiro trabalho acadêmico sobre o mercado editorial?

Minha dissertação de mestrado foi a contragosto, queria outro tema. É o que farei agora; estudar a função social da livraria. Na Castro Alves vimos situações especiais; um rapaz que vendia algodão doce, no fim do dia encostava a estrutura de trabalho fora da loja e ia ver a coleção da Martin Claret, com clássicos da literatura. Muitas vezes só folheava, mas comprava uma média de dois livros por mês. Outro cuidava de piscinas e todo dia ia à livraria, na época do Harry Potte, e lia em pé na porta. Achava aquilo incrível e me animou a estudar a função social da livraria. Este não podia comprar e um dia dei um Harry Potter para ele. Não que não pudesse ler alí, me encantava o cuidado com que folheavam os livros. Outro caso foi uma senhora que só pedia livro sobre o Michael Jackson. Sempre arrumávamos algo novo, que é o lado bacana do Sérgio na busca pelos títulos. Ela era negra e deveria haver algo identitário. Até que me disseram que era analfabeta, o neto lia os livros para ela. Esses casos formaram o projeto de mestrado que levei para a Fundação Getulio Vargas. Mas como eu era muito próxima do meu objeto de pesquisa, a orientadora sugeriu que me distanciasse, estudasse o mercado editorial. Fez sentido porque sempre fui ligada ao mercado: formada em psicologia fui para a área organizacional; fiz MBA na área de engenharia de produção. Então escolhi estudar a Zahar, editora independente na terceira geração de família no negócio e sou fascinada pelo acervo dela; como a coleção Clássicos Zahar. Conversei com eles, com a Mariana Zahar, e fiz um estudo de caso para entender como, em uma época de conglomerados, a editora sobrevivia como independente. Foi ótimo, mas agora quero estudar a livraria. Sei que continuo perto do meu objeto de pesquisa, mas estou menos verde e posso olhar com maior distanciamento. O orientador também está aí para ajudar.

Acredita que os livreiros tenham consciência desse papel social?

Em um negócio é preciso conciliar duas lógicas; a econômica e a simbólica. A econômica prevalece porque as contas têm de ser pagas. Mas a lógica simbólica também tem de existir; ela faz o seu perfil de acervo; é o seu espelho no mundo na forma de títulos. Mas o mercado, acelerado, competitivo, com excesso de informação, dificulta não só a percepção da função social do livreiro, mas também a disposição. São tantas pressões comerciais, como as políticas de preços predatórias dos grandes conglomerados que o pequeno livreiro não tem paz para pensar em tudo que poderia fazer mediado pelo livro. Mas é uma função que ele exerce até sem querer pelo fato de expor o livro que terá poder transformador na mão do leitor, e este, percebendo ou não se transforma. Se o livreiro tem consciência disso tende a impactar muito mais positivamente a imagem e até os próprios proventos. Mas acho que eles têm cada vez menos noção da função social que exercem.

Como estão os eventos na Castro Alves com o isolamento social?

A pandemia impactou os eventos, mas não os encontros; continuamos a encontrar os clientes nos deliveries e reprogramamos eventos para serem on-line . Estamos escolhendo temas e pessoas com a ideia de que não sejam ações só da nossa livraria; que dialoguem com outras livrarias, sejam compartilhados. Queremos nos associar com livreiros que entendam a função social das livrarias e da categoria profissional. Ainda não temos nada ligado à livraria, mas enquanto professora, testo, com as aulas on-line, formas de interagir com o conteúdo. Antes da pandemia havia o encontro Inquietações Contemporâneas; pessoas de diversas áreas e temas específicos. Por exemplo, um encontro sobre educação tendo como autor de base o Rubens Alves; o modo como o leio é diferente de qualquer outra pessoa. Queremos que as pessoas depois visitem o Ruben Alves, o Balman, autores que chamamos para o Inquietações Contemporâneas. O projeto nasceu em função dos livros do Balman, adoro tudo que ele publicou. A sociologia contemporânea é importante para todos. Felizmente o Balman tem sido lido até como autoajuda por causa do Amor Líquido, livro de sociologia. Nunca vimos tanto sociólogo e filósofo virar best-seller.

Há preconceito contra a autoajuda, campeã de vendas no Brasil?

É como a cultura afro, que vendo muito, mas sofre preconceito. Acho que na autoajuda há o mesmo fenômeno; é útil, mas é feio dizer que se precisa de autoajuda. É o perfil do brasileiro; gostar de coisas mas não dizer que gosta; incoerências estranhas refletidas no mundo do livro. O que me faz gostar mais da sociologia e da filosofia é que a autoajuda é repetitiva. Quando um título cai na moda vem quinze atrás, mas na boa filosofia não tem como. Veja o Clovis de Barros com Reputação e no subtítulo O Eu fora de mim. Como fazer uma imitação disso? Já A arte de ligar o f*da-se tem no vácuo o Fudeu Geral, o Seja Foda. etc. O mundo das banalidades é mais fácil e vende bem. Estimulo as pessoas a se pensarem em contextos mais consistentes; indico Amor Líquido, que é sociologia, como autoajuda.

Como psicóloga, quais suas indicações?

Vivemos em um tempo em que psicologia, psiquiatria, neuropsiquiatria vendem bem. O mundo tem enlouquecido fortemente e piorou com a pandemia; excesso de informação, dificuldade em lidar com o tempo e com a priorização de projetos de vida. Excessos de informação e tecnologia  vêm desde os anos 2000 e o mercado do livro reflete isso. Temos procura razoável pelos títulos do Freud, dada sua consagração na psicanálise; e psicologia cognitivo-comportamental, por causa das emergências da vida, não há tempo para técnicas que precisam visitar muito o passado. Mas tenho simpatia por autores menos óbvios como o Felix Guatari, Deleuze, Suely Rolnik, da área de esquizoanálise. Aí venho testando; abrimos um grupo de psicanálise na livraria antes da pandemia, que felizmente se manteve on-line, mas não sob minha liderança; um cliente amigo, com formação em psicanálise, mantêm o grupo que tem diversas formações psi; lacanianos, freudianos, tem alguém de esquizo que não sou eu porque o grupo não bate com o dia que posso. Acho que a esquizoanálise nesse momento é a técnica que mais conversa com os atravessamentos que vivemos, os devires. Felizmente tem ganhado novos leitores e tenho conseguido sustentar um acervo de esquizoanálise na livraria.

E as técnicas mais orientais como meditação e mindfullness?

Temos na nossa região, vendemos, mas não como se vê no Rio e em São Paulo. O interior não espelha o que sai na mídia. Nunca tivemos a Veja, PusblishNews ou Segundo Caderno, de O Globo, como referência do que é mais vendido. Há raras exceções como A sutil arte de ligar o f*da-se, que no começo bombou, mas logo depois apaga. Lá, não há a proposta do best-seller de longa vida. Temos venda expressiva em um acervo não muito óbvio que tentamos cultivar; ciências humanas, política, literatura. Usamos as informações da mídia aberta, as comoções sociais. Esperamos que passasse o Dia da Criança para dar ênfase nos títulos que falam sobre violência contra a mulher, estupro. São escolhas em cima do momento e fora isso é o nosso carinho como livreiro. Somos três na livraria; eu trabalho muito com sociologia, filosofia, esquizoanálise; o Sérgio indica na área de empreendedorismo, negócios; e temos nosso colaborador braço direito do momento, o William, que se identifica fortemente com ficção e espiritualidade.

A venda dos infantis no Dia da Criança foi boa?

Menos do que esperávamos; achávamos que, como as crianças estavam fora das escolas, iria vender bem com os pais desesperados porque elas não tem o que fazer. Mas creio que as babás eletrônicas foram preponderantes no negócio. Também houve a questão dos pais não conseguirem trabalhar menos do que imaginavam que iriam na pandemia; os responsáveis por essas crianças tiveram menos tempo e oportunidades de lazer. Quem consegue estimular a criança a ler se o trabalho aumentou e os controles de tempo mudaram? Os professores trabalharam muito mais; tiveram de preparar uma nova forma de existência; virar professor/youtuber, processo que não é fácil. A maioria das pessoas teve de se reprogramar, ficaram com uma desordem no uso do tempo, uma perda da rotina. A criança não vai mais para a escola e fica do lado da mãe ou do pai que está em casa em home office. O trabalho vai para o beleléu e a criança também. Mas temos uma aposta grande em livros infantis e há um estreitamento com essas editoras. O mercado nacional melhorou muito na produção do livro infantil, que está cada vez mais lindo. Não é difícil parear esses livros com as práticas comerciais on-line. Quando o cliente pega o livro infantil você não o perde para a internet; se ele está na livraria e toca o livro não vai esperar 48 horas para tê-lo em casa. Com os infantis não há diferenças enormes de preço se comparadas aos livros para adultos. Espero que continuem assim, sem práticas tão diferentes para pequenas, médias e grandes redes; aí vende para todo mundo.

Como vê a participação da mulher no mercado livreiro?

As pessoas acontecem na medida em que se lançam no mercado. As mulheres têm habilidade em lidar com as coisas sutis do mundo da literatura, como os homens também têm. Claro que com percepções peculiares, mas está havendo uma mistura porque as convivências estão cada vez mais estreitas. Não foi apenas uma conquista; o mundo empurrou as mulheres para que elas acontecessem. Houve uma questão de necessidade. Na Castro Alves acompanhamos as tendências, como o feminismo.Toda livraria tem de dialogar com o que é acontecimento, inquietação da hora. Os livros têm o papel de reforçar o que a sociedade tem a dizer. São ótimos confrontadores, porque são impessoais; têm autoria mas são feitos para qualquer um. Quando você toca um livro, ele toca você e começa uma atividade muito diferente dos encontros entre pessoas; é mais sutil e muitas vezes mais contundente. Depois, quando as pessoas conversam sobre livros há o melhor dos mundos; cada um sendo tocado por dentro, por fora, textos e autores dialogando através dos leitores. Esse é o mundo mágico das livrarias que as redes digitais nunca  poderão reproduzir como experiência. É o mote existencial da livraria; ser um lugar de encontro.

A nova livraria inaugurada em Araruama faz muita concorrência?

A proposta da Big é ser grande, ela é bem maior que a nossa. Nossos clientes dizem que apesar disso temos mais variedade de títulos. Também não temos o custo elevado que eles certamente têm. Qualquer livraria que dependa de livros não pode ter um custo mensal alto porque a margem de lucro do livro não permite. Uma livraria nova, em um espaço muito grande, dentro de um shopping, com muita iluminação, ar condicionado, vários funcionários tem uma conta alta. Como há um cinema lá o perfil do público é mais juvenil e tivemos a sensação que esse público estivesse migrando para lá. Ao mesmo tempo é um público que gosta de checar preço e passeia nos dois ambientes. Quando o adolescente não faz a compra no ímpeto, ele compra onde encontra afeto e nós gostamos de conversar mais. Muita gente vai na Big e volta para comprar conosco mesmo o preço sendo quase igual. Não tivemos exatamente uma concorrência, mas o ganho de um público que, se não fosse por eles, talvez não visitasse uma livraria. Vejo mais parceria que concorrência. A Big é fruto do desejo da Claudia dona de uma escola tradicional da cidade, o Centro Educacional Margarida. Uma ex-funcionária nossa ajudou na montagem do acervo, a Luana Fernandes, que continua lá.

Qual a relação da Castro Alves com os didáticos?

Cada vez mais distante, independente da Big. O nível de inadimplência nas escolas é crescente ano a ano, em qualquer lugar, e os donos de escolas no interior dizem que precisam vender livros para tapar os buracos da inadimplência. Por isso nunca tivemos parceria com eles para livros escolares. Também não sei se nos faltou uma pegada mais direcionada para isso, ou vontade mesmo. Não gosto que as pessoas venham para comprar livros por obrigação, com uma energia ruim. Parece que é alguém que vai te visitar obrigado a comprar algo pelo qual chega a ter raiva, porque o livro didático é caro. É ruim atender a esse cliente; ele não desfruta da livraria, tem raiva dos valores. Ao longo dos nossos vinte anos não vi muitas vezes, a pretexto da obrigação, acontecer o prazer. Mas não deixamos de vender. As editoras também vendem direto aos alunos mas cada vez menos porque as escolas estão migrando para os sistemas de ensino e as que não têm estão perdendo mercado também.

O relacionamento da Castro Alves com editoras é bom?

Sim, exceto quando acontecem coisas estranhas como a campanha do grupo Record em apoio às livrarias de bairro; quando você conversa com o representante comercial da editora ele diz que para fazer parte da ação, ganhar as bolsas de brinde e lançamentos recentes de 2020 é preciso ter resultados. Ficou a sensação de incoerência comercial que esses grupos fazem ao prestigiar dez unidades da rede Leitura que, até onde sei, não são unidades de bairros. Para não ter esse tipo de problema evitamos cada vez mais focar em lançamentos. Priorizamos a profissionalização do atendente de livraria, que chamamos de livreiro. Para trabalhar conosco não basta ser atendente do sistema; tem de ser leitor, tem de gostar de gente e de conversar sobre coisas inclusive que não conheça ou entenda, justamente por que a curiosidade faz parte da alma do livreiro.

A livraria é procurada por pequenas editoras?

Raramente. Elas estão nos grandes centros urbanos e quem está no calor desses eixos urbanos não consegue ter a paz de pensar no interior. A relação poderia melhorar. Pesquisei sobre mercado editorial e fiquei mais atenta ao trabalho da LIBRE e mais sensível a essas histórias. Mas isso não estreitou nossa relação comercial, a não ser com uma ou outra editora. Poderia ter sido melhor. Uma ótima estratégia, em função dos conglomerados e redes de varejo que vendem inclusive livros; é editoras independentes dando as mãos às livrarias independentes. Se temos espaço para autor independente porque não teremos para editoras independentes. É preciso prestigiar o autor que decide morar à beira da lagoa igual a você, que precisa de um lugar no mundo. Temos uns doze títulos de autores independentes da região. Fazemos rodas de conversa com eles e é bom trazer para nossa convivência quem está próximo. Mas como a vida é um caos de prioridades, esquecemos que há entidades que organizam essas histórias e não abrimos diálogo entre elas. É impressionante que no Rio haja tantos livreiros que não conversam entre si numa situação de categoria por estarem correndo atrás do tempo para fazer outras coisas acontecerem. Falta contundência, ação; vamos fazer cursos sobre isso, laboratórios de inquietações do mundo dos livreiros. Em 2013, houve o Primeiro Encontro dos Livreiros do Rio, em Itaipava, promovido pela AEL. mas o segundo não aconteceu. Todo mundo gostou; houve uma integração da classe. Um evento deles para eles, sem editoras para dizer o que deveria ser feito. Não que não seja importante mas é preciso uma força reativa ´por parte dos livreiros enquanto categoria. A AEL pode fazer isso, basta convidar as pessoas.

Você frequenta as Convenções de Livrarias promovidas pela ANL?

Sempre que dá, inclusive em São Paulo. Gostei bastante da última, no Rio, apesar de ter havido algumas inquietações. Na vigésima quarta Convenção, por exemplo, tivemos o Jean Marie Ozanne, da França, que falou como se conseguiu proteger, com a Lei do Preço Fixo, não só as livrarias, mas sobretudo as editoras. Essa mesa me marcou; teve a Sonia Machado, do Grupo Record, reticente à lei do Preço Fixo, como a maioria dos editores. O livre comércio é mais interessante para o mercado predatório. O que os grupos editoriais não entendiam é que não regular o mercado é  atirar no próprio pé; as vendas se concentram em poucos players e, se um deles quebra, você tende a ir junto. 2018 mostrou que quando Saraiva e Cultura começaram a abanar a crise muita editora foi embora e muitas, até hoje, tentam se salvar com aumento do preço de livro. Agora temos novas concentrações como a Amazon, não tão nova, mas cada vez mais agressiva; o Magalu, que comprou a Estante Virtual. Brinco que, no futuro, o livro não precisará de editora; não será necessário produzir novos livros, já existem muitos no mundo. O futuro do livro é o sebo. O que as editoras vão fazer não sei, vou continuar a vender livros. Não livro velho, isso não existe; velho é categoria de depreciação. Para mim livro é bem cultural. Ele será cada vez mais fetiche, não utilitário, mas prazer, a materialidade que se deseja. Tudo que gostamos, desejamos na materialidade e com o livro não é diferente; queremos impresso para pôr na estante. Na Castro Alves, nossa relação com as editoras está cada vez mais ponderada. Com aquela que tem um trabalho comercial ético nós trabalhamos e vamos tomando distância das que fazem coisas estranhas com o mercado.

Por que a Castro Alves não tem site na internet?

Cogitei fazer um, mas aí entra meu lado conservador. Não estou disposta a aprender os mecanismos para manter um site, prefiro ler livro a interagir com essas coisas e não fico tranquila com a terceirização do que chamo de mediação de bem cultural. Tive experiência com alguém que se propôs a montar um site mas vi que não compreendeu a Danielle, queria que eu fosse mais uma Amazonzinha. Trabalho de site tem de ter livreiro por trás, não é um banco de dados, com alimentação copiou, colou e ISBN. Tem de ter gente sensível no chat. Essa experiência, há 13 anos, durou pouco mais de um ano. Há tantas empresas usando as redes sociais. Numa livraria pequena preciso de ações que sejam praticamente instantâneas e vendam. Instagram e Whatsapp têm sido grandes aliados. O William ficou com as redes sociais, eu com o WhatsApp e o Sergio com o controle e delivery. Porque não terceirizamos o delivery? Por que o processo de entrega do livro só termina com ele na mão do cliente. Não tenho nada contra os motoqueiros mas não vou passar para eles o momento mais sagrado que é entregar o livro na mão do cliente.

Como é ser casada com um livreiro, colega no local de trabalho?

Na época em que nos conhecemos o Sérgio trabalhava em indústria e eu em consultoria na área de indústria, psicologia organizacional. Nunca me imaginei em uma livraria. Mas, em Araruama, ele montou uma loja de artigos religiosos católicos, a forma de iniciar a vida lá. Um dia, estávamos na Paulinas, no centro do Rio, e fiz um comentário sobre a vitrine da loja. A gerente ouviu, me chamou para conversar e depois fomos juntas para um evento de marketing em São Paulo. Na volta, falei para o Sergio que poderíamos abrir uma livraria em Araruama, onde não havia nenhuma. Na loja de artigos religiosos já tínhamos uma seção de livros que era com a que mais me identificava. Não há muito como administrar essa divisão casa-trabalho, não somos casados só um com o outro, também casamos com o livro. É livro na sala, no quarto, em todos os lados. E nunca pesou fazer distinção na rotina. O Sérgio sempre foi mais direcionado para a parte administrativa e financeira e eu à montagem de acervo e às pessoas que trabalham conosco. É um complemento bem sucedido. Temos dois filhos que nasceram na livraria e quando veio a Clara, a mais velha abri o espaço Branca de Neve, ao lado da Castro Alves. Depois, devido à crise, fechamos esse espaço mas o cenário e o acervo de livros infantis foi incorporado à livraria. Quem não tem familia no interior, como nós que fomos morar em Araruama, carrega os filhos para o trabalho. Não há impasse e é inevitável. Não tem como não dormir junto com o assunto livro, mas é bom.

 

28/10/2020