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As novas livrarias do Rio
No ano em que é Capital Mundial do Livro, a cidade ganha cinco livrarias espalhadas pelo Centro, Zona Norte e Zona Sul. Elas se firmam como espaços de convivência e manifestações culturais evidenciados pela participação no 2º Festival das Livrarias do Rio, promovido em dezembro pela AELRJ em parceria com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, SNEL.
Janela - Laranjeiras
A inauguração da Janela, em Laranjeiras, no segundo sábado de novembro, reuniu uma multidão. Dentro da loja, e no entorno. Começou de manhã, com programação infantil, e foi até à noite com samba no bar em frente à livraria, depois do bate-papo com Gregório Duvivier e Marcelo Moutinho, atrações da festa. Letícia Bosisio, uma das sócias, lembra que a inauguração das outras unidades da rede, uma no Jardim Botânico, em 2020, e outra na Gávea, em 2023, também foram bem prestigiadas: “mas Laranjeiras, de fato, surpreendeu.” Duas semanas depois, em 2 de dezembro, a loja lotou novamente, apesar da chuva naquela noite, com a abertura do 2º Festival das Livrarias do Rio, que teve Ruy Castro em uma palestra sobre a arte da crônica e homenagem à Margarete Cardoso, a livreira decana da cidade, com 87 anos. Desde então, outros eventos têm levado bom público à loja, diz Letícia; "como o lançamento da coleção das plaquetes de Laranjeiras e do projeto Dobras da Folia.” Plaquetes são brochuras de poucas páginas e tiragem limitada, tradição de séculos , retomada pela Janela junto à editora mapa.lab. Na coleção sobre Laranjeiras, seis autores escreveram sobre o bairro. Segundo a livreira, sempre há diferenças entre os clientes de cada região: “aqui eles ainda são da redondeza, um público mais festivo, muitos autores, jornalistas, professores.” Em março ela inaugura os clubes do livro da loja; um será sobre a literatura africana e dos orixás, outro sobre literatura latino americana. Letícia também anuncia a parceria com o cine José Wilker, inaugurado há pouco mais de um ano perto da livraria, onde serão feitos os lançamentos mais concorridos. A Janela da Gávea já tem parceria com o cinema situado no mesmo shopping. Em 2023, a inauguração dessa segunda unidade foi nele, com presença de mais de 200 convidados para ver Carla Madeira, então best-seller com Tudo é Rio.
Ceci - Urca
Inaugurada em dezembro, na Urca, em evento que encerrou o 2º Festival das Livrarias do Rio, a Ceci inovou na festa de abertura com distribuição de pacotes de biscoito Globo, potes de açaí e salada de frutas com a proposta de refletir o ambiente praiano. “Me inspirei no bairro da Urca para a decoração com cores marinhas, peixinhos e coisas do mar,” diz Fran Junqueira, a proprietária que, mestre em artes visuais pela UERJ, elaborou a imagem da sereia lendo um livro que decora uma das paredes, “pensei na sereia, figura feminina, que remete a uma das histórias infantis mais antigas: A pequena sereia.” Ilustradora e editora, Fran fundou, há sete anos, a Tigrito, que edita livros infantis. Por enquanto, trabalha sozinha na Ceci, de terça a domingo: “Saí de um trabalho de editoria, das coxias do livro, para lidar diretamente com o público. Revolucionou a minha vida.” “Fico curiosa em ouvir o que as pessoas falam dos livros,” diz ela. “Pensei que fossem buscar autores recém-premiados, ou leituras mais fáceis. Mas já saiu muito Guimarães Rosa, Silvia Plath, Kafka. De leitura contemporânea, Socorro Alcioly, Walter Hugo Mãe.” Por ser uma livraria de bairro as pessoas retornam com a família e os amigos, diz ela:” Turistas internacionais que passam pela Urca se interessam por coisas da cultura brasileira e itens de papelaria.” A presença na região dos campus de duas universidades, UFRJ e UNIRIO, colabora no movimento. “Estou programando muitas coisas,” diz a livreira “quero fazer clubes de leitura, mostra de arte. Um mês para as editoras independentes. Mostra de arte impressa, coisa que sou apaixonada.” Neste sábado, 7, houve o lançamento do livro autobiográfico Cerzideira – costurando com fios da memória, de Patrícia Matos de Farias. Mas, o primeiro evento foi o show com o cantor e compositor Breno Góes na noite da inauguração, última atração do Festival das Livrarias. “Encerrar o Festival com a inauguração da Ceci foi essencial,” diz Fran, “um apoio incrível, até hoje a ecobag do evento está lá pendurada. Cheguei super bem acompanhada.”
Casa Marx - Lapa
Aberta em setembro, na Lapa, depois da Casa Marx de São Paulo, na Vila Madalena, no ano anterior, a loja é uma iniciativa do MRT - Movimento Revolucionário de Trabalhadores. A inauguração, segundo a coordenadora Rita Cardia, reuniu, cerca de 500 pessoas, desde o deputado Glauber Braga a líderes sindicais e indígenas, e mães vítimas da violência do estado. O local também é sede da mídia digital trotskista Esquerda Diário, surgida na Argentina em 2005 e presente em 14 países. Segundo Rita, a Casa Marx opera em várias esferas; “é livraria, café, sebo, brechó e espaço de cultura. Agora temos ensaios para o carnaval do bloco Acadêmicos da Ursal e já fizemos apresentações teatrais.” No segundo andar, onde acontecem essas atividades está em cartaz a mostra Rosa Luxemburgo – Vida e Revolução, atração da Casa Marx no 2º Festival das Livrarias do Rio, com texto e fotos que contam a vida da filósofa marxista alemã, em montagem da Fundação Roxa Luxemburgo, de São Paulo. “A ideia é flexibilizar para várias atividades,” diz Rita, “somos um espaço militante com um comércio, além de reunir pessoas para debater política, formar grupos de estudo, a partir de uma perspectiva marxista. Temos contribuição voluntária dos militantes, que se revezam no atendimento.” Além de incentivar manifestações culturais e políticas a Casa também se posiciona. No dia 29 de outubro de 2025, em protesto contra a operação policial nos Complexo do Alemão e da Penha, que qualificou como a maior chacina da história do Rio, com cerca de 120 mortos, ela decretou luto e não abriu. A Casa Marx tem sua própria editora, a Edições Iskra, que participa em festivais de livros, como a FLIP. Este ano irá abrir a terceira unidade em Belo Horizonte.
Academia do Saber- Carioca
Inaugurada no final de novembro, sem alarde, a Academia do Saber, na Rua da Carioca, recebeu ampla divulgação ao participar do 2º Festival das Livrarias do Rio com a palestra: A resistência da música negra no período do regime militar brasileiro, com o jornalista Virgílio de Souza. “Foi muito interessante, ele abriu para debates e pudemos conversar bem”, diz Ricardo Pereira, dono de três, das cinco unidades da rede, todas no Centro, as outras de seus irmãos Renato e Rodrigo. Com foco em livros usados, as cinco lojas estão próximas à Praça Tiradentes: “O nicho de sebos no Rio sempre foi a Praça Tiradentes. Quando se aglutina as coisas, facilita para o cliente,” diz Ricardo. Animado com a proximidade da estação do Metrô Carioca e com o projeto de revitalização da rua, com calçadas mais largas, jardineiras e bancos para descanso, ele está triste, no entanto, com o esvaziamento do Centro: “comecei aqui aos 17 anos e para andar na Rua da Carioca tinha de pedir licença.” “Vim para cá porque preciso de espaço físico e agregar outra unidade me faz ser mais visto.” Para a nova loja, a mais bonita da rede, com destaque para o piso original, Ricardo selecionou livros mais recentes no seu volumoso acervo e abaixou a altura das estantes para arejar o ambiente. Apesar do trabalho com usados, a Academia do Saber promove noites de lançamentos, a mais notória, na unidade da Avenida Passos, com Vera de Oxaguiã, que escreve sobre o Candomblé. Além da venda de mais de cem livros, a interação entre os convidados, segundo o livreiro, foi até as duas horas da manhã de um sábado. A primeira livraria da rede é a da Rua da Constituição, de 1978, fundada por Mário Leonardo Pereira, pai dos três irmãos. O filho de Ricardo, Rafael, é da terceira geração de livreiros e assumiu a Academia do Saber da Rua Sete de Setembro, inaugurada em 2025 onde esteve a Livraria Solário, desde 2005.
Resenha da Viela - Ilha do Governador
Localizada no Viela, um shopping a céu aberto no Jardim Guanabara, Ilha do Governador, a Resenha da Viela inaugurou em setembro com um sarau que reuniu 20 escritores do bairro e apresentação do Pomar Trio, grupo de jazz. “Rolou até duas horas da manhã, com as bebidas apanhadas no quiosque ao lado”, diz Julio Coutinho, sócio de Leonam Estrella no projeto. Ambos sem experiência no ramo livreiro mas dispostos, depois de aposentados, a fazerem o que gostam. “Ainda estamos no aprendizado sobre venda de livros, fazendo contato com as editoras,” diz Julio. A loja pretende destacar a literatura nacional e latina, filosofia e feminismo. Por ora, o acervo é de usados, na maior parte, e lançamentos dos autores do bairro, à venda sob consignação. Na primeira semana de dezembro, Fábio Pires foi o primeiro insulano a lançar na Resenha; autografou seu terceiro livro de crônicas, Café entre escombros. Dividida entre livros e discos de vinil a loja, que também terá cafeteria a partir de março, promove eventos com as duas mídias. O último, em janeiro, foi uma audição e bate papo em torno da obra de Roberto Carlos. Cinema também faz parte da programação e, entre outras, houve uma sessão com curtas de Kleber Medonça Filho, “ antes de O Agente Secreto ser indicado ao Oscar”, sinaliza Júlio. "O objetivo principal da Resenha é atrair os jovens para o contato com os livros, inclusive com filmes em torno de obras literárias," diz Júlio. Outra “isca” é a promoção de torneio de jogos como já houve de batalha naval, dominó e haverá de xadrez: “Aqui também será uma luderia.” “Mais do que um ponto de venda,” diz Júlio, “ a Resenha da Viela é um lugar de encontro, conversa e troca, onde a cultura circula de mão em mão, de ouvido em ouvido, de olhar em olhar.”
Kleber Oliveira para AELRJ 10/02/2026 |


