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Tomada de liderança

 

Editor e livreiro, Alexandre Martins Fontes assume a presidência da Associação Nacional de Livrarias enquanto a livraria com o nome dele desponta como a melhor de São Paulo.

 

Alexandre na  editora WMF Martins Fontes, na capital paulista

 

Com acervo de cerca de 200 mil livros, a Martins Fontes  está no começo da Avenida Paulista e, com a decadência da Livraria Cultura, localizada no final da mesma avenida, herda o título de melhor livraria de São Paulo.

Ao contrário da Cultura, que nasceu grande, a Martins Fontes, da Paulista, fundada em 1997, foi o patinho feio do grupo editorial  até se tornar a joia da coroa com faturamento maior que o da editora.

Ao crescer, anexou lojas vizinhas na galeria onde está, mas mantém o charme de livraria tradicional com estantes até o teto e escadas de ferro em espiral no acesso ao mezanino e ao segundo andar.

O pai de Alexandre, Waldir, entrou no mercado editorial aos 20 anos com venda de livros de porta em porta, em Santos, litoral paulista, e alí fundou a primeira Livraria Martins Fontes em 1960, que em janeiro completou 64 anos.

Depois, focou na importação de livros de Portugal e distribução pelo Brasil o que o fez abrir um escritório em São Paulo, em 1973, em casa de dois andares no bairro Bixiga, onde hoje funciona a editora.

Como a livraria, a editora acrescentou espaços vizinhos; no último, ergueu um edifício de seis andares, todos eles com estantes com livros que, segundo Alexandre, são um espelho da livraria, de onde saem as vendas pela internet.

Com o falecimento de Waldir em 2000, Alexandre herdou, com o irmão mais novo Leandro, o grupo editorial enquanto a livraria de Santos ficou com os primos.

Formado em  arquitetura, ele colaborava com a editora antes de entrar para a faculdade: "Estou na empresa há cerca de 30 anos, mas meu envolvimento profissional tem mais de 40. Durante um tempo todas as capas da Martins Fontes foram feitas por mim."

A sociedade com o irmão não deu certo, por diferenças no gerenciamento, e se separaram: o catálogo da editora foi dividido entre os dois. Alexandre fundou o selo WMF Martins Fontes, Evandro, o Martins Fontes - Martins, e cada um ficou com duas livrarias da rede:

"Tomamos uma decisão que nos deu oportunidade de seguir em frente e de cada um se realizar pessoalmente e profissionalmente poupando a relação. Não é pouca coisa e me orgulho e fico feliz de ter feito isso."

 

O que o levou à  presidência da ANL?

Ao longo de décadas, nosso envolvimento com entidades, como ANL, CBL e SNEL foi mínimo. É uma das heranças do meu pai, não diria uma desconfiança, mas no mínimo pouco entusiasmo em participar.

Assumir a presidência da ANL foi algo que nunca imaginei. Sou mais voltado para a minha empresa, por a mão na massa e fazer a coisa acontecer em um universo que posso controlar. Quando veio a pandemia, que nos deixou, livreiros, muito assustados criamos um grupo que se reunia semanalmente on- line.

Livreiros importantes discutiram questões que, teoricamente, poderiam ser discutidas nessas entidades. Basicamente, nos perguntávamos como pagar as contas, como sobreviver. Isso funcionou maravilhosamente bem a ponto de, após quatro anos, continuarmos as reuniões, agora quinzenais.

Um dia, nessas conversas, surgiu a pergunta: “A ANL serve para que?”. Minha posição era que não servia para nada,  poderia deixar de existir. Mas, alguns integrantes do grupo me convenceram que seria ruim para as livrarias, de um modo geral, a notícia de uma entidade que as representa deixar de existir.

Concordei e decidimos tentar que ela produzisse mais do que  vinha produzindo. Não quero criticar outras diretorias, mas se a ANL existe tem de mostrar a que veio. Pedimos ao Marcus Teles, à frente da maior rede de livrarias do Brasil, a Leitura, que assumisse a presidência.

Ele disse que não poderia ficar muito tempo, mas  ficou os dois anos, com o apoio que demos; fui o vice-presidente. Antes nunca tive função na diretoria, ficava à vontade para fazer as críticas que sempre fiz.

Ter aceito a presidência da ANL  tem várias razões, uma delas é a Lei do Preço Fixo. Quando comecei a me envolver com a Lei Cortez, vi que, se não estivesse numa posição como agora, a possibilidade de colaborar com o projeto, de ver a lei aprovada, seria enfraquecida.

O trabalho que farei é político, de comunicação entre livreiros e editores, e junto ao governo. Se fizermos de maneira consequente e competente faremos muito. A comunicação está muito truncada; os editores reclamam dos livreiros, e estes tem muitas reclamações com relação aos editores.

 

Alguns editores eram contra a Lei Cortez, e você?

Sempre fui a favor e não concordo que irá ajudar às livrarias em primeiro lugar. Ela propõe o fortalecimento do mercado de livros, que passa  pelas livrarias, com isso, fortalece a sociedade; todos, como cidadãos, leitores, frequentadores de livrarias, seremos beneficiados.

Nunca ouvi um editor dizer: “Danem-se as livrarias, vendo para a Amazon, vendo para o consumidor final, se fecharem não estou nem aí.” Mas há um divórcio entre o que se diz e o que se faz. Nenhum editor minimiza a importância da livraria, mas muitos, na prática, as prejudicam.

Essa conversa, superimportante, já começamos com muitos editores. Sou editor e, para mim, a Amazon tem importância  absoluta. Não posso deixar de trabalhar com ela, mas não vou deixar de trabalhar com as redes e  livrarias independentes.

Se entrego um livro para ser vendido só na Amazon, ou previlegio uma empresa em detrimento de outra não colaboro com um mercado saudável. Pior, se, como editor, vender no meu site com descontos que a livraria, se der, fecha as portas.

Fico constrangido de ter de convencer os editores do papel importante  que têm na sobrevivência das livrarias. De que adianta a Lei Cortez se eles venderem seu fundo de catálogo com descontos que livrarias não podem dar.

Muitos editores não têm consciência do mal que fazem ao vender com desconto no site. Dizem: “ Mas não significa nada, nem ganhamos dinheiro com isso”. Pior, porque não ganha dinheiro e prejudica o mercado, o ecossistema.

Falta informação para muita gente do mercado. Há dois  anos soube que uma importante editora era contra a Lei Cortez. Depois de cinco minutos de conversa pelo telefone ouvi: “Você tem toda razão, eu entendia a lei de outra maneira”. No site da nossa editora todo o catálogo é oferecido ao consumidor final.

As editoras têm obrigação de ir ao consumidor final, só não podem vender por preço diferente do estabelecido.

 

A venda da editora ao leitor não quebra a cadeia do livro?

Não quebra porque não tem livraria no mundo capaz de ter tudo que uma editora tem. Tenho uma livraria de 100m², faço uma curadoria específica para ela o que significa que 70% dos livros publicados não estão na livraria.

Vou impedir que as editoras achem caminhos para vender a parte do catálogo que não está na livraria? Não! A editora tem obrigação com os autores de fazer esse trabalho, e com o leitor também.

Mas o fato do livro não estar na minha livraria não dá ao editor o direito de vender por um preço diferente do que ele estabeleceu para aquele livro. Amanhã posso querer esse livro na livraria  e não quero um fornecedor que seja meu concorrente.

Talvez a maior luta do mercado hoje seja a de convencer as editoras que elas não podem vender por um preço menor. Os principais livreiros do Brasil reconhecem  que o editor pode ter um site de venda direta ao consumidor.

Sou editor e acho que a editora tem obrigação de ter. No site da WMF  está nosso catálogo inteiro, só que não há nenhum livro com meio centavo de desconto.

Os distribuidores também vendem para o consumidor com descontos que não deveriam dar. Por isso há necessidade dessa conversa entre livreiros, editores e distribuidores, mais que urgente.

 

Qual a expectativa da Lei Cortez ser aprovada nesse governo?

Se me perguntasse se ela tem mais chance nesse ou no governo Bolsonaro, é muito mais nesse. Infelizmente há muita gente no mercado que, apesar de saber da importância da lei, vota em um governo que trabalha contra a própria indústria.

Se temos uma oportunidade de aprovar essa lei será nesse governo que tem a sensibilidade de entender a importância da educação, da leitura, dos livros, das livrarias e das editoras. Sou otimista. Vou trabalhar para que ela seja aprovada.

Tenho dito, pretensiosamente e ingenuamente, que se tiver oportunidade de sentar com cada um dos deputados e senadores para falar sobre a lei, a pessoa sai da conversa convencida da importância da sua aprovação.

O desafio é fazer as pessoas entenderem o que ela significa. O Brasil precisa desesperadamente  da Lei Cortez e não é para proteger as livrarias, é para proteger o cidadão, para que ele tenha possibilidade de ter livrarias nas ruas do seu bairro.

 

Como convencer os cidadãos da importância da lei?

Na votação no site do Congresso os votos a favor estão  perdendo. Mas o Brasil tem mais de duzentos milhões de habitantes; essa é uma votação de  três mil contra mil e quinhentos votos. É absolutamente ridículo.

Mas lamento que o mercado editorial não tenha sensibilizado os seus pares para entrar no site do senado e votar a favor da lei. O Júlio Cruz,  dono da Catavento disse:“ se a indústria editorial brasileira  não tiver a capacidade de ter 10 mil votos a favor ela não merece ver essa lei aprovada”.

Infelizmente não conseguimos chegar em dois mil e quinhentos votos, não tenho o número exato. Essa é uma das lutas que temos. A diferença é de mil votos. Mas essa votação não quer dizer nada, diz apenas que no momento em que a lei foi lançada o movimento para dizer não foi mais bem feito.

Não foi a população brasileira que tomou uma posição. Mas, de fato,  se eu chegar na rua e perguntar: “Você é a favor de uma lei que proíba a Amazon de vender com descontos superiores a 10%  os livros lançados nos primeiros doze meses?" A resposta será: “De jeito nenhum. Quero que as empresas tenham liberdade de vender com desconto”.

É a reação natural das pessoas quando não conhecem a questão com profundidade. Mas essa conversa não é para ter com o grande público. Se não tenho tempo para conversar com o senador e o deputado, imagine explicar isso, que não é tão simples, para o grande público.

Temos de mostrar que a lei vai controlar apenas 5% do mercado do que o consumidor pode comprar. Ou seja, 95% continua liberado e pode  ser comprado com desconto. Falamos de um controle só de preços dos lançamentos.

Mas é no lançamento que a pessoa visita a livraria, que descobre o livro. As livrarias são de fato vitrines e showroons da indústria editorial. Se ela chegar lá e ver que a Amazon está vendendo pelo mesmo preço, aumentam as chances de comprar alí.

Mas dentro das limitações da indústria o que temos de fazer é convencer senadores e deputados a aprovar a lei. Pessoas cujo trabalho é esse e que têm tempo para entender o que está por trás de uma lei como essa.

O convencimento da população vai  acontecer no momento em que ela perceber que há mais livrarias nas ruas da sua cidade. Há estudos que mostram que em países onde a lei existe o preço do livro fica mais baixo. Você tem mais bibliodiversidade.

Imagine um mercado com um único comprador, vamos dar a ele o nome de Amazon,  que decide que não haverá  mais livros de poesia. Quem quer um país onde há um monopólio?

Gosto de uma frase do escritor inglês Neil Gaiman: “uma cidade que não tem uma livraria pode até se chamar  cidade, mas ela sabe  que não está enganando ninguém”. O Brasil está cheio de cidades sem livrarias. Isso passa pela aprovação da lei, mas também pelo comportamento dos editores.

 

Como reage ao ouvir que sua livraria é a melhor de São Paulo?

Fico feliz porque são muitas as pessoas que dizem. Feliz e orgulhoso. Assumi a livraria da Avenida Paulista em janeiro de 2005. Ela era muito fraca.

Nós tínhamos a Cultura, no final da avenida, principal livraria do Brasil e ponto final. No começo da avenida havia a Saraiva, maior rede de livrarias, uma empresa centenária, marca reconhecidíssima pela população. Duas quadras ao nosso lado, a FNAC,  multinacional com livrarias na França, Portugal, Espanha.

Na cidade, como um todo éramos uma livraria medíocre, de importância mínima. Quando assumi ela já tinha uns 300 m², hoje tem uns 1000 m². Nesses últimos 18 anos vende dez vezes mais do que quando assumi, com todas as correções monetárias.

É uma história de absoluto sucesso. Não imaginei o que aconteceria com a Cultura, Saraiva e FNAC. Mas não estava preocupado com elas, estava focado na nossa performance. Se somos merecedores do título de melhor livraria de São Paulo foi porque passamos a dar ao cliente o que ele procura e merece receber de nós. Fiz o que, como consumidor, gostaria de ter em uma livraria: bom atendimento, acervo rico.

Quando assumi, vi um cliente ir falar com o vendedor, que fez uma pesquisa no computador, e, em seguida, o cliente saiu. Fui conversar com o vendedor, que disse: “Ele veio procurar um livro mas só tinha o título, sem autor, nome da editora ou ISBN. Não temos o título cadastrado e eu disse que se conseguir essas informações talvez possamos ajudá-lo.”

Perguntei: “onde ele vai conseguir essas informações? Na farmácia, no açougue? Essa obrigação é nossa.” Procuramos na internet e em segundos tínhamos as informações.

Disse a ele: “ Se tivesse feito isso o cliente não teria comprado porque não temos o livro, mas sairia com uma impressão positiva porque o ajudou no assunto. Ou ele poderia fazer uma encomenda e você fornecer o livro para ele.”

O vendedor está lá até hoje, um ótimo profissional que cresceu com os anos. Isso é um bom atendimento; você não tem o livro mas resolve o problema do cliente.

Temos 200 mil livros para pronta entrega, coisa que nenhuma livraria do Brasil tem. Talvez a Cultura tenha tido no seu auge. Aliás, tenho certeza de que não fazemos o trabalho que a Cultura fez brilhantemente quando estava no auge.

O começo da decadência, na minha opinião, foi quando  ela abriu a segunda loja, no ano 2000, no Shopping Villa Lobos. A loja foi bem mas deu início a uma série de decisões equivocadas da Cultura nos 10 anos seguintes.

Começa a mudança de paradigma: era uma loja só, a melhor livraria de São Paulo, melhor do Brasil, o Pedro Herz de manhã, de tarde e de noite na livraria. Quando abre uma segunda, uma terceira, isso não é mais possível.

O auge da Cultura para mim foi nos anos 90. Quando assumi nossa livraria, em 2005, dizia que se fizesse 10% do que a Cultura fazia brilhantemente ao longo de décadas seria um homem feliz.

Nem imaginaria que quase vinte depois ela estaria na situação que está, que a Saraiva teria desaparecido e que nossa livraria seria indicada como principal livraria de São Paulo.

 

Você atribui a queda da Cultura à descentralização?

O fato de ser uma grande rede não significa que a empresa irá para o buraco. A Leitura tem mais de 100 lojas, é uma empresa super bem administrada, saudável, sou fã do trabalho de toda a equipe. Travessa, Livraria da Vila, Curitiba, são várias redes muito bem administradas com trabalho impecável dentro do que o mercado permite.

Mas eu não tenho vocação para administrar uma rede. Brinco que tenho duas livrarias porque herdei duas, se fosse depender da minha vontade teria uma só. Mas é uma coisa minha, vocação pessoal. O problema da Cultura não foi ter aberto várias lojas, eram lojas que não se pagavam. Uma postura megalomaníaca.

Veja a livraria que abriram na Cinelândia, no Rio. Espetacular, mas em uma região da cidade que não há ninguém no fim de semana. Pretensiosamente,  acharam que se instalariam ali e todos iriam à procura deles.

O problema não é abrir várias lojas. No shopping Villa Lobos foi um sucesso, mas outras foram mal desenhadas, mal calculadas, coisa que o Marcus Teles da Leitura não faz. Quando ele erra, e todo mundo erra, vai lá e fecha correndo.

A Cultura ficou com lojas deficitárias anos e anos. Ela fez tudo que uma empresa não deve se quiser sobreviver. Gastou mais dinheiro do que precisava, demitiu os principais funcionários que faziam a empresa extraordinária que era, passou a não dar atenção ao produto livro, ele era o menos importante no mix de produtos.

 

Como é a sua presença na livraria?

Muito menor que era a do Pedro, na Cultura. Fico triste de responder assim, é menor do que eu mesmo gostaria. Minha sala é na editora. Por outro lado tenho a felicidade de estar cercado de profissionais muito competentes, sérios, comprometidos. Por isso temos conseguido fazer um bom trabalho.

Hoje vendemos dez vezes mais que em 2005, mas temos dez vezes mais funcionários; uns 70, quando peguei a livraria tínhamos seis, sete. Todos foram contratados e treinados nessa nova fase da livraria.

Por isso fico orgulhoso, a Martins Fontes tem 64 anos e uma história bonita, mas a história dessa livraria na Paulista foi criada por nós, essa equipe que está lá nos últimos vinte anos. Diria que tudo que está ali tem muito de mim; é o papel do dono que assume fazer o seu trabalho.

Não preciso estar fisicamente todos os dias dentro da loja para estabelecer uma lógica; talvez o meu trabalho mais importante seja não atrapalhar. É brincadeira, mas tem algo sério por trás disso. Tenho de me cercar dos melhores profissionais e deixar eles trabalharem.

Não estou fisicamente como o Pedro estava de manhã, de tarde e de noite, mas semanalmente me reuno, hoje virtualmente, até antes da pandemia fisicamente, com os principais livreiros.  Discutimos como foi a semana, quais os resultados, o que fazer melhor. Não estou lá fisicamente mas estou bem  presente.

 

O que acha do termo curadoria aplicado à livrarias?

Há muitos modelos de livrarias; numa livraria pequena é preciso uma curadoria,  uma escolha do que vai ser colocado na loja. Acabei de chegar de Nova Iorque  onde frequento uma livraria  com 80 metros quadrados e uma curadoria impecável. Tem livros de não ficção mas a grande maioria é de literatura. São livros de ficção para um público específico e eu por acaso me incluo nesse público.

Se você entrar na nossa livraria da Paulista, que tem 200 mil títulos, cadê a curadoria? Claro que tem a escolha do que vai para a vitrine, que vai ter mais destaque, mas é outro nível de curadoria. Nosso trabalho é ter o livro para todos os públicos. Você é evangélico, de esquerda, gosta de artes, vai encontrar o livro,  quer livros infantis, técnicos, de química, matemática, medicina, vai encontrar.

Por isso, não quero uma rede de livrarias; o que fazemos na Paulista é difícil de fazer em outros mercados. É preciso gente para comprar, é preciso mercado. Não é em qualquer lugar do Brasil que você faz uma livraria com essas características.

É importante a livraria ter uma curadoria porque por trás disso tem o fato do livreiro precisar ouvir o cliente; escolher o livro para quem frequenta a livraria. O Rui Campos tem uma história que adoro: ele estava na Travessa e um cliente impressionado com a seleção de livros perguntou; “quem é que faz isso?”. O Rui falou: ” Você”.

A livraria está ouvindo o que o cliente procura.  A livraria que citei de Nova Iorque,  Three Lives & Company, fica no West Village, um bairro intelectual e atende esse público. Se ficasse ao lado de uma universidade, teria outra característica. Defendo que todas livrarias, de todos formatos são absolutamente fundamentais. Por isso o editor não pode achar que seu livro vai estar em todas livrarias, porque cada uma é um universo distinto.

 

Como a livraria se envolve com  a comunidade na Paulista?

Temos lançamentos todos os dias. Às vezes, três lançamentos por dia. É uma festa. Temos clube de leitura, com funcionários que organizam e escolhem os livros, com reuniões dentro da livraria.

Até antes da pandemia tínhamos um auditório, que voltaremos a ter mas em tamanho menor. Na pandamia usamos o espaço para fazer uma extensão da livraria e não voltamos atrás, mas este ano teremos um novo auditório.

Dei uma entrevista no podcast do Dan Stulback que uma hora chamou o filho de 12 anos e disse: “Filho, sabe com quem estou falando, o dono da Martins Fontes, aquela livraria que frequentamos direto”. O menino ficou super entusiasmado, falou dos mangás que compra.

Imagine a Avenida Paulista sem essa livraria, que tristeza seria. Há pessoas que me disseram que compraram  apartamento na região para terem a livraria por perto. Ela é um espaço democrático para todos.

Por isso digo que se tiver oportunidade de sentar com um senador, ou deputado, e falar tudo isso, espero que ele saia convencido de que é uma lei que não irá prejudicar a sociedade, muito pelo contrário, vai ser muito benéfica porque vai dar oxigênio para esses espaços maravilhosos.

 

E o trabalho à frente da Editora ?

Temos o selo WMF, uma homenagem ao meu pai Waldir Martins Fontes, e aos meus dois tios, Walter e Waldemar. Meu avô batizou todos os filhos com W, tinha também a tia Wilma. Quando fiz a cisão com meu irmão, fui obrigado a escolher um novo selo e criei essa sigla.

Nosso catálogo tem uns mil e duzentos títulos. Lançamos de 50 a 60 títulos por ano; basicamente livros de não ficção na área de ciências humanas; filosofia, direito, psicologia, psicanálise, educação, arte, design, arquitetura e infantojuvenis.

Também temos o que chamo de livros de grande público, sobre dietas, parenting, expressão inglesa para educação. Temos quadrinhos, principalmente para o público mais adulto e, no final do ano passado, lançamos os dois primeiros títulos do  novo selo Poente, de ficção. Tem como editor o Flavio Pinheiro, jornalista super respeitado, curador das duas primeiras FLIPs, curador do Instituto Moreira Salles por duas décadas. Estou muito animado com esse novo projeto.

 

Você consegue tempo para  ler?

Sou leitor, gosto de ler, não assisto televisão.  Leio livros da primeira à última página, leio romances, mas leio muita coisa picada; dois capítulos de um livro para ver se vamos publicar. Procuro ler além daquilo que é minha obrigação como editor; literatura e livros de outras editoras que quero conhecer.

Hoje sou um entusiasta do audiobook. Do e-book não, nunca li um e-book. Ele representa 5% do mercado e para mim não passa disso, nunca. Como livreiro e editor não deveria ser entusiasta do audiobook, mas tenho ouvido muitos livros de modo entusiasmado,  na ginástica, no supermercado, no carro.

Mas é importante dizer que ainda não ouvi um livro de ficção, que pede uma concentração maior. Minha experiência é com livros de não ficção. Já me peguei chorando no supermercado por causa de uma passagem emocionante de um livro de memórias.

Ouvi todos os livros do Obama, lidos por ele. E como gosto da família ouvi também o da Michelle que foi quem me fez chorar no supermercado.  Achei maravilhoso o da atriz norte-americana Viola Davis; um relato inacreditável sobre onde a pessoa nasce, cresce, os problemas sociais e onde ela consegue chegar. Tenho ouvido também livros de negócios; um dos últimos foi um nosso, O lado difícil das situações difíceis. Adorei .

 

Como vê a inteligência artificial no mercado editorial?

Não sou estudioso da matéria e minha resposta é de leigo, superficial. É algo inevitável, veio para ficar. Óbvio que não chegou só ao mundo editorial mas também na criação de imagens, filmes, efeitos especiais.

É bobagem querer segurar a capacidade de criação do ser humano. É como perguntar se você é contra ou a favor do computador, do telefone, da luz elétrica. Temos de estudar com mais profundidade para ver até que ponto isso é benéfico e quando passa a ser maléfico.

Está muito no começo, particularmente no mundo editorial. Vai trazer questões éticas importantes; “livros”, escritos por um autor quando na verdade são de uma inteligência artificial.

Uma resposta politicamente correta  seria que não publicaria um livro feito pela AI. Mas, publicaria a capa de um livro em que o designer usou um efeito de inteligência artificial para o resultado que quis ter.

Como não recebi nenhum original que saiba ter sido escrito por uma máquina, ainda não estou nesse momento. Por isso não sei responder com muita clareza.

 

Porque não seguiu a carreira de arquiteto?

Se tivesse 18 anos e fosse fazer vestibular escolheria de novo a faculdade de arquitetura como fiz na Universidade de São Paulo. Adorei ter feito, tem tudo a ver comigo; um pouco de arte, a visão mais técnica, o arquiteto como um pensador que organiza espaços.

Adoro arquitetura e adorei ter feito. Mas dentro da faculdade tinha certeza que nunca trabalharia como arquiteto, como nunca trabalhei. Sempre me interessei mais pelo mundo bidimensional; desenhava, pintava e fazia projetos de design gráfico.

E tinha o cliente que acreditava no meu potencial, me entregava projetos,  que era o meu pai. A partir daí comecei a fazer as capas dos livros. Não tenho a paciência necessária ao arquiteto para ver sua obra realizada. Gosto da coisa pronta com mais rapidez.

A oportunidade na editora me levou a trabalhar muitos anos como designer no Brasil e lá fora. Até hoje sou um pouco o diretor de arte da editora. Se tem uma área que eu centralizo as decisões é a da apresentação visual; as capas passam por minha aprovação.

O caminho que vamos seguir é estabelecido por mim; a apresentação nas mídias sociais, a logomarca.  Me sinto à vontade nesse universo. Se não tivesse o pai que tive, ter vindo  para  a editora, me tornar empresário do livro, provavelmente seria um designer. É a área com a qual mais me identifico do ponto de vista do fazer, apesar de ser muito feliz na posição que tenho.

Sou um pouco o arquiteto da Martins Fontes, que  aponta os caminhos. Não deixo de ser um arquiteto. Houve um momento na minha vida, aos vinte e pouco anos, que cheguei a ter um estúdio onde pintava todos os dias.

Fiz exposições no Brasil e fora. Mas preferi trabalhar como designer do que como artista plástico,  que é muito solitário. Até pelo retorno financeiro que tinha como designer. Era mais feliz fazendo reunião com os clientes, discutindo projetos. Sempre gostei de me relacionar com as pessoas.

Por mais que goste do mundo das artes não nasci para ser um artista solitário.

 

 

Kleber Oliveira

31/01/2024