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Livraria como ativismo


Vencedora do prêmio Livraria Destaque 2026 do PublishNews e homenageada na Assembleia Estadual do Rio no mesmo mês de maio, a Canto Geral, em Seropédica, une posicionamento político, devoção religiosa, e ativismo cultural coletivo.


Pablo Lima, sentado à direita, e equipe na Canto Geral - foto Grabriela Machado

 

O nome Canto Geral surgiu no livro de poesias do chileno Pablo Neruda,  de 1950, sobre lutas políticas na América Latina. Em 1968, o músico Geraldo Vandré, autor de Prá não dizer que não falei de Flores,  batizou com ele o seu LP mais politizado.

E em 2016 a chapa que dirigiu o DCE da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, também se chamou Canto Geral. Dela participavam o estudante de Bela Artes Pablo Lima, a estudante de Jornalismo Pollyana Lopes  que, depois de formados, junto com a  estudante de Filosofia Anna Santos fundaram a livraria.

No dia da inauguração - 15 de março de 2018 -  veio a notícia de que a vereadora carioca Marielle Franco fora assassinada na noite anterior no Rio. “Nossa festa foi desmobilizada,” lembra Pablo, “ e fomos às manifestações de protesto pela morte dela.”

“Estamos atravessados pela política,” conclui. Em 2025 a livraria recebeu uma urna para o plebiscito sobre o fim da escala 6 por 1. “Fizemos um trabalho de base com os frequentadores da livraria,” diz Pablo: “Estamos torcendo para passar no Senado. Mas aqui nossa escala é 5 por 2 desde o começo.” A Canto Geral funciona de segunda à sexta-feira.

No princípio era uma pequena livraria de rua com porta vermelha, em Seropédica, municipio com cerca de 85 mil habitantes, emancipado de Itaguaí em 1995, que teve o desenvolvimento impulsionado pela presença da Universidade  Federal Rural do Rio de Janeiro.

Desde 2019  a livraria está no Casarão, ONG que tem Pablo como presidente e agrega diversos coletivos e atividades culturais em um  amplo espaço com jardim e cantina: “um local de acolhimento em uma cidade marcada pela impermanência e  pela insegurança,” diz ele.

“Tivemos medo de sermos acossados pela direita em Seropédica,” lembra, sobre o começo, no ano em que Jair Bolsonaro foi eleito presidente: “havia carro de bolsonaristas estacionado à frente da livraria para tapar a visão.”

“Nós sempre nos posicionamos à esquerda,” afirma: “Trabalhar com cultura e ser de direita é dar um tiro no pé. O Bolsonaro acabou com o Ministério da Cultura logo que assumiu a presidência.”

O prêmio Livraria Destaque  2026 dado pelo PublishNews e distribuidora Catavento veio depois da campanha  em que a livraria derrotou por votos as concorrentes Livraria das Perdizes, em São Paulo, e Baleia, em Porto Alegre.

“Conseguimos mobilizar muita gente porque temos um papel mais ativista e menos de loja,” afirma Pablo: “  Nossa rede foi bem acionada, no boca a boca. São momentos como esse da premiação que nos mostram o papel que temos na vida alheia.”

Além de livros e assistência técnica, o prêmio trouxe a vontade de crescer e passar de uma livraria “morna”, de acervo com maioria de livros usados, para uma livraria “quente”, com livros novos, além dos já consignados por autores independentes.

“Essa  premiação faz com que repensemos  a nossa trajetória. É fundamental para todo livreiro ou livraria ser contemplado com esse reconhecimento,” avalia. “ Não é destacar como a livraria é importante, mas como livrarias são importantes.  Trabalhar com cultura, literatura, é muito ingrato, porque não temos muito apoio da política pública.”

“Nossa campanha de incentivo à leitura é com o valor de nossos livros de literatura, a maioria em torno de 20 reais,” diz ele. Livros acadêmicos, relacionados aos cursos da Universidade Rural são mais caros, como os livros à venda na Estante Virtual, que garantem a subsistência da livraria.

Seropédica é uma cidade universitária  onde a população, segundo o livreiro, duplica durante o ano letivo e cai nas férias, mas neste período as atividades mantêm a casa cheia; ”a universidade soma, mas não é exclusividade.Tem muito jovenzinho que vem regularmente ler um livro, tomar um café. É um local de encontro, de estar.”

Junto com o Casarão a Canto Geral promove  eventos que vão de Encontros de Brechós, bailes de forró a lançamentos de livros, debates e oficinas de colagem. “O que mais me marca na trajetória da livraria não é um evento isolado, mas sair, fazer coisas fora; amplia  os horizontes. Mas nosso cotidiano também é muito rico.”

A Canto Geral participou de edições da FLIP, em Paraty,  na casa da Estante Virtual,  e em eventos na Baixada Fluminense como a Festa Literária de Nova Iguaçu. Em maio, depois do Prêmio PublishNews foi homenageada na Assembleia Legislativa do Rio  no Encontro Estadual da Periferia Brasileira de Letras.

“Foi um reconhecimento por esse ativismo tanto individual como coletivo de anos.  Foi bom reencontrar muita gente,” diz Pablo, lembrando que também foram homenageados autores, o pessoal do SLAM e bibliotecários. Ampliamos nossa rede de contatos.  “Estávamos muito focados na Baixada Fluminense e muito isolados. Somos a única livraria da cidade.”

A Canto Geral é a mais nova integrante da Associação Estadual de Livrarias RJ e Pablo reconhece a importância da filiação; “ Serve para podermos nos sustentar enquanto classe de livreiros. Toda vez que vou a eventos me dou conta de como fazemos as mesmas coisas em locais diferentes.”

“Se conseguirmos nos mobilizar de alguma maneira temos tudo para crescer. Nós é que temos de nos articular para que a AEL tenha mais ações em conjunto. O benefício é muito mais simbólico e a longo prazo do que  algo imediato.”

A Canto Geral foi uma das poucas livrarias do Rio a participar da Noite das Livrarias, evento nacional que aconteceu pela primeira vez neste 23 de abril, Dia do Livro. No Rio, a data é feriado estadual ,Dia de São Jorge, e  a maior parte das livrarias fluminenses evitou promover eventos.

Mas, como a feijoada de São Jorge é tradição no Casarão decidiu-se esticar  as atividades até a noite com o Forró Literário na livraria. “Tiramos o balcão do meio, afastamos os livros, demos um milhão de recomendações e o forró comeu até uma da manhã.”

São Jorge é o padroeiro do Casarão e Cosme e Damião  se tornaram padroeiros  da livraria depois que ela começou a distribuir doces para as crianças de Seropédica  em 27 de setembro.” Passados oito anos, essa prática pulou de algo cultural para devocional. Temos um altar com as imagens de Cosme e Damião na livraria.”

Pablo não tem religião, se diz universalista, com rituais pessoais: “ mas vejo sentido em  nos apropriarmos desses  encantamentos cotidianos. Teve uma menina que vinha pegar doce, engravidou e depois voltou com o bebezinho no Dia de Cosme e Damião.”

Em sua vivência de livreiro em Seropédica ele diz que quem lê mesmo são os adolescentes, muito influenciados pelos booktubers: “ Eles têm um papel fundamental no incentivo à leitura.”  Mas ressalva que é uma literatura contemporânea, “água com açúcar”  e que os clássicos são vistos como algo careta.

Pablo diz que mesmo antes de participar do DCE  na universidade com a chapa Canto Geral fez parte de grupos e coletivos,  sobre reforma agrária, cineclubismo e fundou uma ocupação cultural no teatro da cidade  ainda ativa.

“Quando você estuda Belas Artes você ganha muitas ferramentas e a que escolhi foi a mobilização social. Sou muito mais agitador cultural do que outra coisa. Tudo o que faço é com muita gente. Montar a livraria foi algo natural e está nesse bololô”.

 

 

Kleber Oliveira                                                                                                                                                                    para AELRJ                                                                                                                                                                    25/06/2026